quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Disco: Komba - Buraka Som Sistema


As periferias ao centro

Num tempo em que a globalização (musical) tantas vezes rima com repetição e em que os sons comprimidos no formato mp3 se acumulam num amontoado indistinto de ficheiros, como agulhas perdidas num palheiro gigantesco, apetece perguntar: serão as periferias o último reduto da criatividade, a derradeira réstia de território menos explorado? Sejamos sinceros. Nunca deram por vocês a pensar que uma grande percentagem das bandas que por aí se ouvem (das comercialonas às indies – termo que deveria ser banido ou substituído, por ter perdido o significado, de tão abusado e tantas vezes repetido sem nexo) soam todas ao mesmo? Nos grandes centros mediáticos, o excesso de atenção cria e destrói fenómenos à velocidade com que o Messi deixa adversários pelo caminho, impedindo potenciais novos estilos ou tendências prematuras de saírem da incubadora; e raramente há tempo para amadurecerem. O que já não se verifica tanto em Luanda, no Mali (não será por acaso que membros de Tv On The Radio participaram no último álbum dos enormes Tinariwen) ou Lisboa.
E os Buraka Som Sistema são uma prova-viva disto. Partiram duma base musical surgida em Angola e trabalharam-na duma forma que, como os próprios afirmam, apenas poderia suceder na capital portuguesa. Se em From Buraka To The World, ou mesmo ainda em Black Diamond, o rótulo do “kuduro progressivo” lhes surgia colado com alguma naturalidade, Komba confirma que a capacidade deste colectivo em absorver as mais díspares influências é uma ferramenta para criar algo novo e seu, com potencial explosivo para agitar ainda mais as pistas de dança e os palcos internacionais. E só isso explica que, entre tantas colaborações e estilos presentes neste disco – laivos de kuduro, sim, mas também moombahton e diversas outras tendências electrónicas –, seja possível manter-se intacta a identidade autoral da banda, agora reforçada pela presença de Blaya.
Desde o Alô ouvido em “Eskeleto” até à despedida, feita com “Burakaton” (exercício lascivo na companhia dos colombianos Bomba Estéreo), Komba é festa selvagem e sem concessões, daquelas que só acabam depois de os vizinhos chamarem a polícia. Há singles que são o equivalente sonoro da dinamite – a trepidante “Hangover (BaBaBa)” ou o hino imediato “(We Stay Up) All Night” –, espaço para se aproximarem do formato canção (na magnética “Voodoo Love”, com as participações de Sara Tavares e da jamaicana Terry Lynn) ou para virarem o feitiço contra alguns feiticeiros em “Lol & Pop”, reflexão onde respondem a certas críticas com sentido de humor. Momentos menos inspirados são poucos (“Vem Curtir” ou “Hypnotized”), e quase passam despercebidos no meio de tantos motivos para celebração. Mais pagão do que religioso, este Komba é um ritual que vamos repetir muitas vezes.
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Publicado originalmente no Bodyspace, mais concretamente aqui.

Entrevista: Buraka Som Sistema

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A caminho dum som tipo Buraka
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Após Black Diamond ter sido objecto de garimpeiros um pouco por todo o mundo, é tempo de Komba (ritual religioso angolano que tem tanto de celebração como de tristeza) abrir um novo capítulo e alargar horizontes para aquela que será já a mais internacional das bandas portuguesas da actualidade. São de Lisboa, mas o som que praticam é para todos os que gostam de fazer a festa, em clubes de Luanda ou Budapeste, em concertos no Brasil ou nos Estados Unidos. Com os Coliseus de Lisboa e do Porto a servirem de arranque à apresentação do novo álbum, durante este mês de Novembro, apanhámos os Buraka Som Sistema a meio de intensa actividade promocional. A palavra ao mestre-de-cerimónias Kalaf sobre o presente momento de um grupo que não cria música com o intuito de representar as Nações Unidas da música electrónica, mas sim com a vontade de encontrar algo que seja genuinamente um som Buraka Som Sistema. Fazendo música livremente.
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Link para a entrevista integral, publicada originalmente no Bodyspace.

sábado, 5 de novembro de 2011

A banda sonora do Lisbon & Estoril Film Festival’11

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Nesta quinta edição, a decorrer entre os dias 4 e 13 de Novembro, o festival de cinema dirigido por Paulo Branco alarga horizontes para Lisboa; e fá-lo ao mesmo tempo que celebra a transversalidade com as outras formas de criação artística e se afirma como um espaço de reflexão e debate dos temas que definem a agenda cultural contemporânea. A música estará, assim, presente no LEFFEST sob várias formas. No Simpósio Internacional “Os direitos de autor na era da Internet: que futuro para as indústrias culturais? (a decorrer nos dias 11 e 12 de Novembro no Centro de Congressos do Estoril) uma das mesas-redondas ser-lhe-á dedicada, contando-se com as presenças de músicos como Adolfo Luxúria Canibal, Sophie Auster ou Paulo Furtado aka Legendary Tiger Man. Haverá, também, lugar para concertos e dj sets, diversificados nas sonoridades e nos espaços em que vão decorrer.

Dia 5: DJ Set de Randall Poster (supervisor musical de filmes como Zodiac, Velvet Goldmine ou Kids) no Lux, pelas 24:30;

Dia 7: Concerto do violinista Gidon Kremer e do violoncelista Giedre Dirvanauskaite, apresentando obras de Poleva, Kancheli, Bach e Gubaidulina, no Centro Cultural de Belém, pelas 21 horas;

Dia 10: Concerto de Sophie Auster (filha de Paul Auster, escritor e realizador presente no Simpósio Internacional do LEFFEST, do qual integrará também o júri) no Lux, pelas 22 horas;

Dia 11: Concerto de Para One (o francês Jean-Baptiste de Laubier, realizador e produtor de música electrónica, que já remisturou Daft Punk, Justice ou Boys Noize) + Logo – dupla parisiense de electro, composta por Hugues Tonnet de Parrel e Thomas Desnoyers, apresentada como um dos mais promissores projectos da editora Kitsuné – no Lux, pelas 23 horas.

Para quem quiser perder-se e encontrar-se entre antestreias, homenagens e retrospectivas, fica o site do Lisbon & Estoril Film Festival´11.
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Publicado originalmente no Bodyspace, mais concretamente aqui.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A música de Aguardela na apresentação da biografia Esta Vida de Marinheiro

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A biografia oficial de João Aguardela foi lançada no passado mês de Setembro, e desde então tem sido apresentada em vários pontos do país. Sessões que, de acordo com o jornalista Ricardo Alexandre, autor da obra, «Correram muito bem. Tivemos casa cheia em Lisboa e no Porto e também uma sessão bastante especial em Tires, no Desportivo Monte Real, que era o clube do João».


Chega agora aquela que será, em princípio, a última apresentação do livro, a ter lugar no Cine-Teatro Avenida de Castelo Branco, no próximo dia 5 de Novembro. Nessa data e local, Ricardo Alexandre irá passar música dos diversos projectos em que o músico falecido em 2009 esteve envolvido, como Sitiados, Megafone ou A Naifa.

Sobre ”João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro", editado pela QuidNovi, Ricardo Alexandre adianta ser «Um livro sobre um amigo que foi um músico excepcional e que traz o testemunho daqueles que com ele se cruzaram».

“Como um raio a rasgar a vida / Como uma flor a florir desmedida / Como uma cidade secreta a levantar-se do chão / Como água, como pão / Como um instante único na vida / Como uma flor a florir desmedida / Como uma pétala dessa flor a levantar-se do chão / Como água, como pão / Assim nasceste no meu olhar, assim te vi / Flor a florir desmedida / Assim te vi, a rasgar a vida”

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Publicado originalmente no Bodyspace, mais concretamente aqui.

Ao Vivo: PAUS @ Lux

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No início do mês os PAUS anunciavam no seu facebook que já sabiam tocar mais de metade do disco novo. E o Lux seria o local indicado para comprovar o progresso dos últimos ensaios, festejando a aguardada edição do homónimo LP de estreia, sucessor dum EP que agitou águas e cinturas. A longa fila formada antes de as portas da discoteca de Santa Apolónia se abrirem reflectia o entusiasmo hoje existente em redor da banda da “bateria siamesa”, que aos sacos e t-shirts juntou um mikado como original objecto de merchandise.
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Link para o artigo integral, publicado originalmente no Bodyspace.

Dead Combo - Lisboa Mulata


MulatiCidade

Quantas cidades cabem em Lisboa? Quantos aromas e formas, sabores, tons de pele e sons, carpidos e escutados? Possivelmente tantas quantas as viagens trágico-heróicas que ajudaram a construir e desfazer um Império, de que somos causa e efeito. Uma teia de gestos e cinzas que, à bruta ou por amor, misturou gentes e culturas, criando algo que hoje em dia está muito em voga classificar como “lusofonia” aka conjunto de identidades culturais existentes nos países onde se fala a língua portuguesa e em diversas comunidades espalhadas pelo mundo. Sim, é bom lembrar - mais a mais numa época em que se discutem eurobonds e os "trabalhadores povos do Norte" encostam os "mandriões do Sul" à parede - que podemos ter raízes europeias, mas a nossa identidade e maior riqueza se encontram espalhadas (e espelhadas) por África, Brasil e outras paragens...
E se Lisboa Mulata não se deixa confinar pelas balizas lusófonas (continuam a avistar-se cowboys; em “Ouvi o Texto Muito ao Longe” Camané parece sussurrar as palavras escritas por Sérgio Godinho na vastidão de uma qualquer pradaria norte-americana), nunca essa miscigenação que desembocou no melting pot contemporâneo terá estado tão presente na música de Dead Combo. A faixa-título abre o disco em passo estugado, que nos faz percorrer diversas latitudes culturais da capital; balanço renovado na esquina em que se descansa a beber umas cervejas frescas na companhia de uma gulosa cachupa, antes de voltar a incendiar os sentidos ao sabor de uma morna. A “portugalidade”, tão cara em tempos de crise, também continua vincada, no jeito subversivo (e genial) de descambar com uma marchinha de Santo António (no que contam com a colaboração do enorme Marc Ribot, cuja inspiração haviam já homenageado em Vol. 1) ou no quase fado encantatório de “Esse Olhar Que Era Só Teu”.
Com os pés assentes no rectângulo, onde bebem referências íntimas e exóticas, mas de olhos e espírito além-fronteiras, Tó Trips e Pedro Gonçalves continuam a construir um universo particular (único, genuíno) que pode ser apreciado com os cinco sentidos - e noutros tantos continentes.
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Publicado originalmente no Bodyspace, mais concretamente aqui.

Entrevista: Dead Combo



Uma cidade com janelas abertas para o Mundo

A Lisboa Mulata saiu à rua há pouco tempo, para arrasar na sua primeira festa, e faz-nos bailar neste estio prolongado de Outubro, em que a tardes abrasadoras se sucedem noites amenas. Traz-nos aromas de África e ritmos do Brasil, além dos ambientes de outras paragens que fazem do duo formado por Pedro Gonçalves e Tó Trips um projecto com uma vocação cada vez mais universal. O “gangster” Pedro Gonçalves fala-nos do caldeirão cultural que se pode ouvir (e sentir pulsar) nesta cidade mestiça, por onde passam pessoas e influências de todos os continentes. E como os Dead Combo gostam de subverter a música e os músicos, oferecem-nos a oportunidade de escutar Camané no papel de diseur ou Marc Ribot (uma referência essencial para estes dois portugueses) tocar – e des(cons)truir – uma marcha popular imaginária. 
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Link para a entrevista integral, publicada originalmente no Bodyspace.