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terça-feira, 28 de junho de 2011

Lançamento do site da Videoteca Bodyspace + 10 anos da Clean Feed = Festa Ao Quadrado



O Bodyspace comemorou na passada sexta-feira o lançamento do site da sua videoteca, espaço para os músicos porem as suas criações em movimento. Como não queríamos deixar de nos associar ao 10º aniversário da Clean Feed (que, a partir de Lisboa, se tornou numa das mais relevantes editoras de jazz mundiais), o palco escolhido foi a Trem Azul, no Cais do Sodré. E os Compêndios de História rezarão assim sobre esta festa: Onde há fumo, há fogo, costuma dizer-se; e o serão abre com projecções incandescentes, tal como a música dos Pão. Experimental e ritualista, feita de círculos que se alargam em ondas sonoras. De seguida, os Sunflare trocaram o magma por raios e trovões que inundaram o céu da Trem Azul com a brusquidão duma tempestade sobre o mar. Improvisação e electricidade de uma ponta a outra. O resto da noite… bem, os DJs Bodyspace esbanjaram charme pela pista de dança, com malhas mais ou menos ortodoxas para os ouvidos dos melómanos presentes. Afinal, It Was Friday, Friday, Gotta Get Down On Friday…


Publicado originalmente no Bodyspace, mais precisamente aqui

Júlio Resende Trio - You Taste Like a Song


«A que sabe a canção? A que sabe a música?» – as perguntas surgem das entranhas deste CD, e as respostas vão-se formando através das suas nove faixas. "Silêncio – For The Fado" inaugura o registo do trio encabeçado pelo pianista Júlio Resende, começando a levantar a ponta do véu. O tema começa calmo para depois abrir, uma e outra vez, como uma flor que rompe sedenta de vida, anunciando a Primavera de Bill Evans. A introdução de "Um Pouco Mais de Azul" partilha desta poesia, mas logo a composição se desdobra em arranques intercalados por pausas que sugerem uma dança entre os instrumentos. O tema-título aponta à dualidade do álbum, síntese entre lirismo e pujança. A composição, enérgica, é conduzida pelo piano mas a bateria de Joel Silva e o contrabaixo de Ole Morten Vagan marcam os compassos. "Hip-Hop Du-Bop" é outra das composições vibrantes. A bateria arrisca o efeito scratch e assistimos a uma disputa amigável entre groove e melodia. 

You Taste Like a Song vive também da abordagem a temas de outros compositores. A riqueza dos Radiohead constitui um factor de atracção para quem se move nos territórios da música experimental/improvisada, sucedendo-se versões das suas músicas. "Airbag" revela-se fiel ao espírito da composição original sem a mimetizar. O contrabaixo introduz nuances nas transições e o diálogo estabelecido com o piano faz a música progredir numa narrativa não-linear. Em "Who Did You Think I Was" (original de John Mayer) um baixo fortíssimo espera-nos logo à entrada, e juntam-se a ele o piano e a bateria – também em fúria – para comporem um tema pleno de garra, mais emotivo que racional. Para fechar, "Straight No Chaser". O standard surge vigoroso, com uma percussão quase tribal a abrir. Thelonious Monk foi um inovador do piano, com um approach invulgar – forte, tenso – do instrumento, que percutia como se fosse um tambor. E o trio de Júlio Resende mostra-se digno do legado deste e de outros mestres. A sua música sabe a amor e fúria, arrebata-nos a alma e mexe com o corpo.



Publicado originalmente no Bodyspace: artigo colectivo Clean Feed, 10 anos: improvisação sem limites.